SALVO PELA NAVALHA,

DO BARBEIRO

Odailson da Silva

É verdade que cavalo velho gosta de capim novo! E é aí que ele se ferra. Digo isso, porque fui vítima de uma traíção – devo ter sido de várias – de uma bela moça. No auge dos meus 40 anos, a conheci e me apaixonei perdidamente. Depois das devidas investidas e de todo o jogo da sedução, no caso dos homens mais velhos, a palavra correta creio ser, ostentação, o namoro rolou. Bom, tudo ia muito bem – quero dizer, estava sendo muito bem enganado -, até que veio a triste revelação de que fui o tempo todo corneado. Fiz tudo que um “besta” apaixonado faz. E assim, ofertava-lhe: presentes, declarações e até provas de amor, nada faltava ao reportório, a não ser, é claro, o amor dela. Ela trabalhava como representante de vendas de uma empresa de gêneros alimentícios e, portanto, tinha uma rota a fazer cotidianamente. Acontece que, nas palavras dela, seus trabalhos encerravam-se por volta das 14h. No entanto, sempre que a ligava após o seu expediente, o telefone encontrava-se desligado. Eu, em face de meus afazeres diários só a via à noite – todas as noites. E interrogada do porque de seu telefone ser desligado durante todo o período da tarde, dizia-me ser por conta das atividades da Igreja, umas visitas a pessoas necessitadas. Ah! Achei isso lindo e, pensei: “taí uma mulher para casar”. A dita cuja possuía um carro popular já bem usado e de cor vermelha, cor de sangue. Inclusive, como todo homem Alfa, pagava reiterados consertos que este, constantemente, exigia. Ressalte-se que em face de meu trabalho e por gosto pessoal, primo pelo meu cabelo sempre muito bem cortado – uma prática adquirida da vida militar, penso. E assim tenho meu barbeiro de predileto, que, não obstante, tornou-se um prezado amigo. E foi ele a me salvar! Um dia, sentado em sua cadeira para “aparar os pelos”, perguntei-lhe sobre seu filho. Ele havia me confidenciado que o mesmo, estava a fazer uso de drogas. De pronto me responde, com tom de alívio e alegria: cara, ele nunca esteve tão bem! Ó benção! E o que houve? Iniciou o breve relato. Tu me acredita, que ele arranjou uma namorada: é bonita, trabalha, é da igreja e tem até um carro? Que coisa boa! E quem é ela? Acho que não a conhece, mas ela é filha do seu Chico Preto – um comerciante por demais conhecido na cidade. Seria uma moreninha que trabalha com vendas, faz parte de um grupos de jovem da Igreja e tem um carro vermelho? É ela mesmo! Tu a conhece? Respirei fundo, e: sim, conheço. Depois só foi pô-la contra a parede para confessar-me. É, fui salvo pela navalha do barbeiro. Contudo, meu pobre e velho coração saiu dilecerado por uma outra navalha: a da carne! E o barbeiro? Ah! esse, eu não troco por nada nesse mundo!